Quando me formei em Pedagogia, em 2017, eu estava cheia de vontade de ensinar. Logo depois da formatura, passei em um concurso público e assumi uma turma de 1º ano. Eu queria alfabetizar aquelas crianças, mas havia um problema: eu nunca tinha ouvido falar em consciência fonológica e não sabia, de verdade, como o processo de alfabetização acontecia.
Eu comecei como muitas professoras começam. Ensinava palavras, colocava textos na lousa, apresentava atividades de leitura e escrita e esperava que, aos poucos, as crianças começassem a ler.
Mas os resultados não apareciam como eu esperava.
A minha frustração aumentava. E a frustração das crianças também.
Foi nesse momento que comecei a estudar profundamente sobre alfabetização. Fiz cursos, li pesquisas e comecei a compreender algo que transformou completamente a minha prática: antes de aprender a ler e escrever, a criança precisa desenvolver habilidades que dão suporte a esse processo.
Entre essas habilidades estão o vocabulário, a nomeação automática rápida, a memória operacional fonológica e as funções executivas, como atenção, memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva e a consciência fonológica.
Abaixo eu vou falar um pouco sobre essas habilidades preditoras e dar sugestões de atividades e recursos que você pode utilizar e dessa forma potencializar o desenvolvimento de sua criança.
Vocabulário
O vocabulário, por exemplo, permite que a criança compreenda e utilize um número cada vez maior de palavras. Por isso, brincadeiras de nomeação, categorias, associação e busca de palavras são tão importantes.
O vocabulário é desenvolvido desde o nascimento, quando a mamãe canta para o bebê, lê histórias, conversa com ele. E aos poucos a criança vai compreendendo as palavras e aumentando a quantidade de palavras conhecidas. Quanto mais palavras ela conhece, melhor é seu vocabulário.
Um recurso que pode tornar esse momento muito mais divertido é o Stop eletrônico. Além de ser uma brincadeira que envolve rapidez para pensar e encontrar palavras, ele cria oportunidades para ampliar o vocabulário de maneira espontânea.
Nomeação Automática Rápida
Coordenação motora
Também gosto de utilizar diferentes materiais para estimular habilidades motoras e cognitivas de maneira lúdica. Atividades que envolvem coordenação motora, por exemplo, podem proporcionar experiências de precisão, planejamento dos movimentos e organização da ação.
Alguns materiais interessantes para esse tipo de proposta são:
Funções executivas.
A criança precisa conseguir manter a atenção em uma atividade, lembrar uma regra enquanto executa outra ação, controlar um impulso, esperar sua vez, mudar de estratégia quando necessário e utilizar informações que acabou de receber.
Essas habilidades estão presentes em praticamente todas as situações de aprendizagem.
Por isso, jogos com regras são excelentes aliados. Enquanto a criança brinca, ela precisa controlar o comportamento, manter informações na memória, prestar atenção e adaptar sua estratégia.
Alguns jogos que podem ser utilizados com esse objetivo:
Atenção
A atenção também merece um lugar especial. Uma criança que não consegue sustentar a atenção ou selecionar as informações importantes terá mais dificuldade para acompanhar determinadas propostas de aprendizagem.
Para trabalhar essa habilidade de forma lúdica, alguns recursos podem ajudar:
Depois de tantos anos trabalhando com alfabetização, avaliação e intervenção, uma coisa ficou muito clara para mim: quando uma criança apresenta dificuldade para aprender a ler e escrever, precisamos olhar além daquilo que ela ainda não consegue fazer.
Precisamos perguntar: quais habilidades estão por trás dessa dificuldade?
Essa mudança de olhar fez toda a diferença na minha prática profissional.
E é justamente isso que eu gostaria que mais professores e famílias soubessem: uma criança que ainda não lê não precisa apenas de mais atividades de leitura.
Ela precisa que compreendamos o que está dificultando a aprendizagem e que ofereçamos as experiências certas para desenvolver essas habilidades.
Eu demorei para descobrir isso.
Mas foi justamente esse erro que me fez estudar, me especializar e transformar completamente a forma como trabalho com crianças que estão aprendendo a ler e escrever.
E talvez essa seja uma das maiores lições que a minha primeira turma me ensinou: antes de ensinar uma criança a ler, precisamos aprender como ela aprende.
Consciência Fonológica
Mas, entre tudo o que estudei, uma das descobertas que mais transformou minha maneira de alfabetizar foi a Consciência Fonológica, que vou chamar daqui para frente de CF.
A CF é a capacidade de perceber e manipular os sons da linguagem oral. Ela não é uma única habilidade. É um conjunto de habilidades que vai se desenvolvendo progressivamente.A criança começa percebendo unidades maiores da fala e, gradualmente, passa a lidar com unidades menores.
Entre essas habilidades estão a consciência de palavras e frases, a percepção de rimas, a aliteração, a consciência silábica e, posteriormente, a consciência fonêmica.
Por exemplo: perceber que uma frase é formada por diferentes palavras é uma habilidade. Perceber que “gato” e “rato” terminam com sons parecidos envolve rima. Identificar palavras que começam com o mesmo som envolve aliteração. Separar uma palavra em sílabas envolve consciência silábica. E perceber ou manipular os fonemas de uma palavra exige um nível ainda mais refinado de consciência fonológica.
E isso importa muito para a alfabetização.
Pesquisas brasileiras já encontraram relação entre habilidades de consciência fonológica e o desempenho em leitura e escrita. Barrera e Maluf (2003), por exemplo, encontraram associação entre o desenvolvimento da consciência fonológica e o desempenho posterior em leitura e escrita.
Em outro estudo, Paula, Mota e Keske-Soares (2005) observaram resultados positivos após uma intervenção envolvendo consciência fonológica, com efeitos também relacionados às habilidades de leitura e escrita.
Foi então que eu percebi o meu grande erro no início da minha carreira:Eu estava tentando ensinar a criança a ler e escrever sem antes ajudá-la a compreender a estrutura sonora da língua.Hoje eu sei que brincar com palavras, rimas, sons, sílabas e fonemas não é simplesmente “brincar”.É ensinar.
É preparar a criança para compreender que aquilo que falamos pode ser analisado em partes e que essas partes podem ser representadas por letras.
E foi justamente dessa necessidade que nasceu meu interesse por criar materiais específicos para trabalhar Consciência Fonológica de forma planejada e progressiva.
Se você procura um recurso para desenvolver habilidades de CF por meio de atividades lúdicas e direcionadas, conheça este material:

Por fim
Depois de tantos anos trabalhando com alfabetização, avaliação e intervenção, uma coisa ficou muito clara para mim: quando uma criança apresenta dificuldade para aprender a ler e escrever, precisamos olhar além daquilo que ela ainda não consegue fazer.
Precisamos perguntar: quais habilidades estão por trás dessa dificuldade?
Essa mudança de olhar fez toda a diferença na minha prática profissional.
E é justamente isso que eu gostaria que mais professores e famílias soubessem: uma criança que ainda não lê não precisa apenas de mais atividades de leitura.
Ela precisa que compreendamos o que está dificultando a aprendizagem e que ofereçamos as experiências certas para desenvolver essas habilidades.
Eu demorei para descobrir isso.
Mas foi justamente esse erro que me fez estudar, me especializar e transformar completamente a forma como trabalho com crianças que estão aprendendo a ler e escrever.
E talvez essa seja uma das maiores lições que a minha primeira turma me ensinou: antes de ensinar uma criança a ler, precisamos aprender como ela aprende.






